segunda-feira, 4 de maio de 2009

MATANÇA do PORCO



O jantar da noite anterior, normalmente é de dieta, pois no dia seguinte, os estomâgos têm que estar receptivos á fartura existente. Chegam os convidados, bem cedo, e a mesa veste-se gulosamente, para o mata-bicho não falta o bagaço, mas na mesa ainda estão "defuntos" do ano anterior: presunto, salpicão, chouriça. Assim esconjurado o frio e preparados para o "crime", avança-se para o cortelho. À frente, o "matador" experiente, de faca na mão, tenta aprisioná-lo pelo focinho. 
Com mais ou menos dificuldade, ei-lo amarrado ao leito da morte. Quatro homens seguram-no, cada um com a sua pata, comandados pelo matador. Afastados os que têm pena, "não vá ele encolher o sangue", chegada a mulher com alguidar, aí vai solenemente a picada mortal, balança-se o porco na luta com a morte.
Segura-se cada um como pode, neste longo minuto de agonia. Em jorros de dôr o animal atroa os ares. O alguidar, em mãos destemidas, vai-se enchendo. A um canto ferve a água nos potes. 
Mais ao lado, a palha vai sendo escolhida para lumieiras que tostarão a pele já morta. Hoje, o maçarico a gás vai substituindo a palha.
Despojado das unhas e queimado o porco de um lado, é hora de o virar. Antes, porém, há o intervalo deste filme para beber um copo de vinho, acompanhado de pedaços de sangue, entretanto já cozido.
E a tarefa vai continuando até não restar um apelo às facas afiadas. Escaldada a língua e a orelheira, calça-se no chambaril e pendura-se numa boa trave.
Aí será " operado" pelo matador que o alivia da primeira carne para a mesa. As tripas são cuidadosamente apartadas para um tabuleiro e, de tarde, serão lavadas em amplos alguidares.
Na cozinha está preparado o manjar. Na panela vão-se derretendo os torresmos. O sarrabulho só espera a água a ferver. Esta iguaria é preparada com pão cortado em pequenas fatias a que se junta o sangue cozido, leva também açúcar ou, noutras terras, alho.
Sobre todo este preparado cai água a ferver. E aí está o famoso sarrabulho que serve de sobremesa e que, em algumas aldeias, chega a dar o nome a este dia festivo rural. - a festa do sarrabulho.
Um ou dois dias depois, desfaz-se o porco, meticulosamente cada peça dá o seu melhor para a salgadeira ou para o fumeiro. Desde os untos à bexiga, nada é estragado. Neste dia, está aínda vivo o hábito de "dar o prato". Consiste em levar aos lares mais chegados, um prato com carne, sangue, costeleta, fígado... para que todos provem da matança. 
É dispendioso, pensa-se. Mas o certo é que nesta altura havia muita coisa que era excessiva   Com este gesto,dar sete ou oito pratos, ganha-se carne durante sete ou oito semanas, pois que, cada vez que uma dessas pessoas mata, vem trazer, fresquinha, a carne do seu porco, retribuindo o prato. 
Salutar e inteligente este hábito comunitário, perdurou durante os tempos. Depois de algumas noite de "enchimento", aí temos cada casa rural apetrechada com condimento delicioso para o ano inteiro: farinheiras, moiras de sangue ou de cebola, chouriças do buchada ou de carne propriamente dita, os salpicões deliciosos.
Alguns comem-se em festividades marcadas: o moiro de sangue - Domingo magro; o salpicão da barbelada - domingo gordo; o salpicão da língua - dia de entrudo.
 

 

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